Inclusão · Comunidade

Em Salvador, idosos aprendem celular em praça pública — e voltam na semana seguinte

Por Fernanda Oliveira Publicado em 7 de junho de 2026 Atualizado em 9 de junho de 2026 ~880 palavras
Ilustração de mesa com celular e caderno em ambiente comunitário

Toda terça de manhã, a praça do Largo do Tanque, no bairro de Brotas, ganha quatro mesas dobráveis e uma pilha de cadernos com letra grande. Não é evento da prefeitura nem aula de informática em laboratório: é o "Celular sem Medo", iniciativa de letramento digital para pessoas com mais de 60 anos, coordenada por voluntários do bairro com apoio pontual de uma biblioteca comunitária.

O nome veio de Dona Neuza, 71 anos, que disse numa roda de conversa: "Eu tenho medo de apertar errado e sumir com o dinheiro." A frase virou cartaz. Hoje, cerca de trinta participantes fixos passam por módulos que vão de "ligar sem dedo tremendo" até "reconhecer mensagem suspeita no WhatsApp".

Aula de verdade, não demonstração

Diferente de cursos online que assumem que todo mundo já sabe o que é ícone, o método aqui é lento e repetitivo de propósito. Cada voluntário fica com no máximo dois alunos. O primeiro encontro é só para ajustar fonte, brilho e volume — parece pouco, mas evita que a pessoa desista antes de abrir o aplicativo de mensagens.

Rafael, estudante de 19 anos que ajuda nas terças antes da faculdade, conta que o maior obstáculo não é tecnologia: é vergonha. "Tem gente que esconde o celular na bolsa porque os netos riem quando pergunta a mesma coisa de novo." Por isso as mesas ficam de costas para o fluxo da praça — não para esconder, mas para criar intimidade sem sala fechada.

Dado local Segundo articuladores, mais da metade dos participantes usa smartphone herdado de filho ou comprado usado. Muitos chegam com chip pré-pago sem dados — o projeto ensina a usar wi-fi da praça e da biblioteca antes de gastar crédito.

SUS, Pix e vídeo-chamada com neto

O módulo mais procurado é o de saúde digital. Com a expansão do agendamento pelo aplicativo Conecte SUS e consultas por telemedicina, idosos que antes iam presencialmente à unidade básica agora precisam navegar fila virtual. Inês, ex-costureira de 68 anos, aprendeu a tirar print do comprovante de consulta "para mostrar à filha que não é golpe".

Pix entrou no roteiro depois de dois golpes no quarteirão: um falso funcionário do banco e um "primo pedindo urgência" no WhatsApp. Voluntários simulam mensagens falsas em papel — literalmente recortes colados num cartaz — e pedem que o grupo identifique sinais de alerta. Funciona melhor do que slide projetado, dizem os coordenadores.

Letramento digital para idoso não é ensinar emoji. É devolver autonomia para resolver a vida sem depender de alguém de confiança estar disponível na hora.

Quem financia e quem sustenta

O projeto não tem CNPJ nem salário. Gastos com impressão, café e cabo de carregador extra vêm de rifa no bairro e de doação de uma papelaria da região. A biblioteca empresta guarda-sol quando chove. A Secretaria Municipal de Inovação foi procurada uma vez; o processo de parceria travou em formulário online que os próprios coordenadores tiveram dificuldade de preencher — ironia anotada sem ressentimento.

O que mantém a continuidade é lista de presença e telefonema. Se alguém falta duas terças seguidas, uma voluntária liga para saber se está doente ou desanimou. Retenção assim supera muita plataforma corporativa de "capacitação digital".

Limites honestos

Nem todo mundo aprende no mesmo ritmo. Participantes com perda auditiva ou visual severa precisam de adaptação que o projeto ainda não domina — articuladores admitem a lacuna e buscam parceria com centro de reabilitação. Também há quem desista porque a família "resolve rápido" no lugar, reforçando dependência.

Para quem quer copiar o modelo, o conselho de Neuza é direto: "Não trate a gente como criança. Explique uma vez, deixa praticar, repete sem suspiro." Parece simples. É — e por isso ainda é raro.

Reportamos de Salvador, mas iniciativas parecidas existem em Fortaleza, Belém e no interior de Minas. Se você coordena uma, conte para [email protected].